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Recorte Precário

por Ed França

 

 Foto: Geraldo Cézanne

 

Kelson Frost é artista plástico e também participou da Gothic Vox, banda cult nos anos 90 no cenário pesado de BH que chamou mais atenção da crítica musical e revistas especializadas do que as bandas de metal que sonhavam em despontar no mercado. Ainda numa era de transição do vinil para o CD, Kelson ilustrou com sua arte muitas capas de discos dessa safra do metal pesado. Recentemente mostrou na capital mineira uma série de pinturas intituladas “Recorte Precário”. Num papo descontraído, ele abre o verbo sobre arte, música, internet, política, futebol, seu processo criativo e seus novos projetos na música.           

 

 

         

 

 

Seu trabalho é figurativo, mas você começa de imagens fotografadas, do inconsciente, de rascunhos, anotações? Como começa?
Meus trabalhos não são feitos partindo do desenho e sim do abstrato, onde extraio figuras que podem chegar ao realismo. Eu não gosto de desenhar um quadro e depois pintar, colorir, acho que assim eu perderia o prazer do descobrir e transformar.
Você imagina como seria a dimensão do seu desenho se você não tivesse se expressado como músico sendo só um pintor, claro que tomaria outro rumo, mas você já pensou nisso?
Sim, imagino... A música sempre esteve presente! Minha pintura tem muito acerca daquilo que é contundente na minha vida, na minha formação como ser humano, e das coisas externas que me cercam e comovem... A música é forte aliada, mas não obrigatória e sinto que existe uma troca de fenômenos, como tons musicais e tons de cores, formas cheias e vazias , como que é quente e o frio... e por aí vai...
E você teve formação acadêmica?
Não, sou autodidata...
 Acho demais isso! Não penso que seja  necessário ter formação, claro que ajuda em algum sentido, abre portas pra conhecer um universo, referências, mas o autodidata buscando informação e não ficando preso numa formatação que a instituição imprime é muito saudável também...Concorda?
Ela te facilita né! Ela te aponta para onde você quer construir seu trabalho, o modo crítico de ver as coisas e a própria arte. Mas, eu por outro lado, não por defesa, acredito mais na condição natural das descobertas, naquele momento muito pessoal, ou ate no momento de total fragilidade humana... onde se exprime de fato uma personalidade.
Vendo essas pinturas recentes me remete muito do cotidiano, dessa fragmentação que a gente vive em tudo, na vida, na tecnologia, nas relações, nos valores, procede essa minha impressão?
Com certeza, a série “RecortePrecário” propõe a mostra de imagens comuns de um cotidiano e que isso possa facilitar a recriação de idéias, dando a elas o direito de sonhar, de imaginar seu próprio lirismo através de elementos simples...
O que eu quis com o “Recorte Precário”  foi conduzir arquétipos que possam proporcionar o delírio infantil... mas contundente pela velocidade da vida contemporânea que nos intimidam
Como se fosse o nosso sonho mais inocente enquanto seres humanos?
Sim...Exatamente isso... É o que mais nos faz falta!
A “precariedade” nesse trabalho vem da dificuldade do ser humano se sentir, de se abraçar, de não ter segurança, de não se sentir livre, de estar em comum acordo com as pessoas que estão ao seu redor.
O “modismo” da  “arte contemporânea”, por um certo ângulo, ela chega demonstrar o caos em demasia, as anomalias existentes levando o fruidor ao descontentamento, principalmente o leigo,  a quem eu dedico esta série. Há um descaso também da crítica que não tem a menor intenção de dar atenção a poesia!
Nem as instituições relacionadas com arte?
Muito menos...
Foi um custo conseguir divulgar nos jornais sobre a exposição, só um jornal deu atenção imediata. A própria mídia que deveria fazer a divulgação do circuito cultural de uma cidade do tamanho e e âmbito artístico como Belo Horizonte não dá espaço... fiquei impressionado, mas é aí que vejo espaço e vontade de mudar o rumo de uma ideologia provinciana.
Você acompanha o mundo da arte ou se interessa por artistas que trafegam na mesma linha de pensamento que você trabalha?
Não conheço muitos artistas... sou completamente leigo ...Gosto do Daniel Senise, acho muito bonito a questão das cores, materiais e Adriana Varejão pelo conceito forte e extenso, Hilal Sami Hilal, com uns recortes, montagem de papel, metal, colagens, Ele cria uma trama e usa uma tipologia que é de fácil apreciação e depois, cria e recria com espelhos e vultos...a sombra de sua obra sobre a parede...acho fantástico!
E você sempre trabalhou com o tridimensional em suas imagens, lembro no começo dos anos 90, de uma pintura sua que tinha uma colagem inserida, um recorte, era a capa do R.I.V (Rhythms In Violence ),  uma banda que eu gostava, de crossover, aquela imagem eu adorava....
É a que mais gosto sabia?
É mesmo?
Sim, das capas que fiz, sim!
Eles foram os únicos de todas bandas que permitiram trabalhar com experimentos, fugindo daquela estética padronizada do “heavy metal”. Todas as bandas que eu fiz capas, todas, me pediram pra copiar uma coisa de alguém! Por isso eu não dou mérito algum àquelas capas, quando alguém fala comigo eu desconverso...Realmente, é um trabalho que não é meu, é um plágio, e eu não gosto de plágio (RS)! Eu fiz aquilo por dinheiro mesmo, porque eu precisava!
Feito apenas em cima da proposta que a banda queria, você não argumentava, tentava fazer diferente?
Era imposição das bandas, sempre! Teve uma banda que antes de ver o trabalho pronto disse que a pintura era gótica (dark) e não queria! Eu nem sabia o que era gótico na época (risos), e esses rótulos eu não entendo, não fiz parte de nada disso!...A pessoa viu mas não se identificou, ainda era um trabalho inacabado, mas, que chegaria ao desejado, ou seja, as tais caveiras, demônios, coisa e tal ( risos), mas o caminho não seria aquele trivial, como capa de bandas famosas e bla, bla, bla...apartir daí foi minha última tentativa de fazer capas.
No meio metal é famosa a capa do sarcófago...
Aquilo é uma cópia de uma pintura renascentista não me recordo o nome do artista, ela é famosa mas é uma coisa deles, poderia dizer que a criação é deles, não participei a idéia,  só executei...
Era comum você entregar a pintura original para a banda?
Sim, eu vendo a obra, eles ficam com a tela, o trabalho é deles.
E na sua banda Gothic Vox, você tinha total liberdade para criar? Você ainda mantém contato com os caras?
Sim, somos uma família ainda. Antes de ser uma banda tínhamos muitas afinidades. Olha, foi como meu trabalho na Arte visual, não tinha restrição de nada, a gente não era nem Banda, começou como uma brincadeira que tomou forma, uma maneira impar de criar, cada um com uma discoteca básica completamente diferente, quando juntávamos surgia música. Até as performances que aconteciam nos shows ao vivo, eram naturais e improvisado, nada era ensaiado , era respiração e transpiração
Como era seu processo de composição na Banda Gothic Vox?
Era muito abrangente, não era só uma base, um solo, daí um refrão e outra base, tinha uma imagem ali, se visualizava um sentido nítido...  Como eu não sabia partitura eu queria explicar as músicas que criava para as pessoas, eu me perguntava como vou mostrar essa idéia para que eles entendam? Não tinha um gravador, eu ficava desenhando como seria a música, criando umas bolinhas, traços, etc...(risos)
Era uma tablatura sua, um tipo de partitura então?...
Pode ser!...Não sei se é porque o desenho sempre foi vivo na maneira de introduzir idéia, mas facilitava, quando conheci o Paul Klee percebi que a pintura dele é musical pra mim, eu via e imaginava música ali...
Eu tenho na memória uma performance que aconteceu no ginásio do Ginástico, comecinho dos anos 90, que foi visceral pra mim, virou influencia aquilo e contribuiu muito para minha formação de artista também, acredita? Aquela mulher que entrava com um véu, fantasmagórica...
Era o extremo oposto do que as bandas do “metal” da época faziam, além de teatral, performático, tinha a luz, encenação, como as banda viam isso?
Nesse show foi até engraçado, parecia uma descriminação com nossas aventuras lúdicas e ao passarmos pelo corredor frente ao camarim das outras bandas foi uma risada por parte deles, nunca fomos os “headbangers”...mas isso não intimidava, pois não nos preparávamos pra eles, e sim para que o público visse algo novo. (risos)
Eles não entenderam nossas roupas, e nem era pra entender também...(risos)
O lance da descriminação é que tinha negros na banda, e na época importava ser nórdico, um cabelinho loiro, que pudesse balançar...
 Era tipo parecer o Max (atual Soulfly), não importava ser bom músico ou não, importava era parecer com ele...


Foto: Nino Andrés

 

 

 

E o seu visual já era “cyber punk”... 
Não tínhamos essa visão assim tão clara, hoje a gente fala cyber punk com clareza de idéia, mas quando saiu nas revistas e a crítica dizendo que éramos “cyber punk”, aí que fui atrás para saber (risos). Era uma parte de nossa ingenuidade...
Você tem escrito novas canções?
Tenho um projeto chamado MOLD-E, que disponibilizo pelo Myspace. Ainda esta em formato instrumental e crio como uma maneira de fugir do foco da Pintura. Faço tudo pelo computador, é bem intuitivo. Sem intenção de shows ou gravar um cd, disponibilizo gratuitamente de forma virtual.
Eu penso que internet criou espaço para o artista divulgar seu trabalho livre de corporações e instituições que vampirizavam os artistas, os direitos dessa obra criada e limitavam a viabilização da mesma. O artista ou músico independente cresceu com essa cena, o Myspace e sites de relacionamentos são ferramentas importantes até onde para você?
É muito importante hoje você criar sua trilha ignorando por completo a mídia tradicional! É o único modo de fazer uma espécie de revolução para que a mídia venha a correr atrás do artista. Ele tem um valor, ele não é feito de merchandising, moda e estereótipos... ele é feito de criação e intuição, são valores não palpáveis e a mídia têm que entender isso!
Voce está sempre viajando, em que lugar do Brasil você morou, onde gostou e não gostou?
Bem primeiro a gente tem que estar bem para ver com bons sentidos tudo ao seu redor... em São Bernardo do Campo, eu não gostei de morar lá, cidade pesada, industrial, a questão do nordestino que perde a identidade querendo ser paulistano, perdendo as referências, vi muito e achei muito triste... estou em Belo Horizonte atualmente e Gosto, mas Porto Seguro com certeza é o melhor retrato do Brasil colônia. É a miséria exposta, um povo sofrido que sorri para gringo, pra gente do sul e do sudeste do Brasil que impõe superioridade.
Sem contar os mesmos governantes, os mesmos decrépitos ainda no poder e parece que não muda...
Está em voga esse assunto, sabemos quem são os Sarneys de sempre... apesar  dos políticos péssimos, de uma mídia horrorosa, de um canal de tv que monopoliza tudo, igrejas sedentas a assustar e empacotar tudo, dentro de uma estética colonizadora, somos sempre domados criativamente, esteticamente, apesar disso acho que pode mudar um dia, talvez daqui a 500 anos(risos)...estamos as vésperas de eleições, ainda não encontramos um bom candidato!...É outra precariedade (risos)
Você assiste televisão? Te incomoda a falta de qualidade na programação diária dos medíocres canais abertos para a população?
Assisto, até as podreiras, temos de saber o que acontece ao seu redor, mas esta cegueira não me afeta nem me alimenta, sei o que gosto, quando quero me alimentar, vou direto à biblioteca, a uma exposição, converso com amigos que sempre trazem boas novas ou compro o livro que quero.
Você reage bem ao silêncio para criar, pra abstrair, ficar quieto, você precisa ou gosta?
Gosto muito, constantemente...
Mas o silêncio também é música, não é Kelson( risos)?
Com certeza, nunca pensei em ficar sem música, amo música e ultimamente percebi que quase não escuto música enquanto trabalho com outros processos, só pra estudar musica, arrumar minha bagunça ou num ambiente mais descontraído ou conversar com amigos, mas pra produzir minha arte a música é o silêncio.
Tem escutado o que?
Manic Street Preachers, Rodney Hunter, Tuomo, Tears for Fears, que voltou a pouco tempo. Achei excelente. Nessa série de pinturas “recorte Precário” ouvi muito Nina Simone, Marvin Gaye e Gil Scott Heron.
Lendo?
Um livro chamado (ANIMAL MORAL - A INFIDELIDADE ESTÁ EM NOSSO DNA? - ROBERT WRIGHT)
Logo nesse momento que você comentou em off que está feliz e se relacionando bem e com alguém? (risos)
É um livro didático (risos), estou no começo dele, ainda estou numa parte mais sobre DNA, de biogenética...(risos)
Sei qual é, de um autor que tem a tese  que a Moral é Animal e não só dos humanos, mas de grupos primitivos de primatas, li sobre a teoria dele...
Isso mesmo( risos), ate aonde li leva a crer que sim...
Ler pode me desvincular completamente do que estou produzindo, música não, funciona como ar pra mim. No decorrer da série é só musica, depois que termino é que leio, senão perco o foco.
Na série Marrons de pinturas, que fiz em 97, eu li muito Dostoiéviski, cara, o trabalho já estava pesado, e eu lendo obras dele ainda,( risos)..
Eu tenho medo de me misturar demais (risos), eu classifico certos pensadores e escritores,  e sei que eu tenho de ir com calma...(risos). Eu tenho medo daquilo ficar me mastigando...muita coisa que você lê pode demorar anos pra digerir, é um processo..
Futebol?
Galo Doido até morrer...
FDP (risos)
Eu vi você zuando amigos em comum, mandando fotos do Veron...etc...
Mas você saiu tão humilde, que eu fiquei sem espaço para te “zuar”! Pegou sua fotinha da taça da libertadores e saiu... mansinho (muitos risos)
Meus melhores amigos são atleticanos, jamais fiquei sem zuar ou perdi o bom humor por eles e me sacanearam por ser cruzeirense...
Nunca briguei por conta disso. Pra ter um time tem que ter um presidente, é política a coisa, e se tratando de política no meu país já é fracasso! ...Isso nunca mudará minha vida, então nem ligo...(risos).
Vamos tomar um café?
Vamos, só se for agora...

Vamos procurar um lugar então...

 

Mais sobre Kelson Frost aqui:

Artwork: http://www.saatchi-gallery.co.uk/stuart/StudentArt/ast_id/79268

MOLD-E (projeto musical) http://www.myspace.com/moldeproject

GOTHIC VOX -http://www.myspace.com/326491661

 

 

 

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